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domingo, 8 de julho de 2012

Doces de Pelotas - Parte 2. A Fenadoce

A Feira Nacional do Doce - FENADOCE - é realizada no local onde funcionou uma das grandes indústrias de doces (CICA) que se instalaram em Pelotas entre as décadas de 1950 e 1970 utilizando os benefícios fiscais oferecidos pelo governo e que se retiraram do município quando a lei expirou.
Ocupa 20 mil metros quadrados de área coberta, onde produtos de todo o país e do vizinho Uruguai são vendidos em estandes comercializados para garantir o funcionamento da Cidade do Doce. Um pavilhão separado é destinado exclusivamente a produtos regionais e apresentações culturais de grupos locais e da vizinhança, principalmente os CTGs - Centros de Tradição Gaúcha.
Conforme me esclareceu o Prof. Samir Curi Hallal, a primeira Fenadoce foi realizada em 1986, consequência natural das edições do Festival do Doce realizadas de 1982 a 1984 pelo Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes em parceria com o Senac/Pelotas, e já seguindo a tradição das Festas do Pêssego na Colônia. Bem mais tarde conseguiu tornar-se uma realização anual.

Castelo cenográfico na frente do qual é realizada a cerimônia de inauguração.


 

Doceiras no estande da Associação. A da
esquerda é a simpática Mara, que preparou
minha encomenda para viagem.






 

Neste estande envidraçado eram demonstrados os processos de preparação dos doces mais tradicionais, em destaque as passas de pêssegos.






Receita de pêssego passa, uma das mais elaboradas, copiada do suplemento Guia do Doce, do jornal Zero Hora de 05/06/2012.

PASSA DE PÊSSEGO
Ingredientes:

50 pêssegos
9,5quilos de açúcar
Agua suficiente para cobrir os pêssegos

1. Escolha pêssegos bonitos, sem machucados, e limpe-os.

2. Em água fervente, coloque quatro pêssegos por vez, retirando-os quando estiverem no ponto de pelar e colocando-os em um recipiente com água fria. Com as mãos, retire as cascas e coloque-os em outro recipiente com água limpa. Descaroce as frutas.

3. Para 50 pêssegos, faça uma calda rala com 3 quilos de açúcar e vá colocando as frutas na calda, uma a uma, até ficarem lustrosas. À medida em que forem ficando entranhados de calda, retire e coloque-os em uma vasilha, onde devem ficar cobertos pela calda até o dia seguinte, quando serão retirados e colocados para escorrer em peneira de taquara.

4. Com 2,5 quilos de açúcar faça outra calda (mais grossa). Nela, deite os pêssegos e deixe-os. No terceiro dia, retire-os da calda, arrume-os escorra novamente em peneira de taquara.

5. Com 4 quilos de açucar, faça uma nova calda em ponto de refinar e, nela, leve os pêssegos novamente ao fogo, até levantar fervura. À medida em que os pêssegos forem ficando prontos, bem trespassados de caldas, retire-os e arrume em uma peneira onde, depois de frios, devem ir ao sol para secar.

6. Diariamemente mude-os de posição, virando-os. Demora entre 15 e 20 dias para ficar pronto.




E no Pavilhão da Cultura Gaúcha ...
Cenas de uma das apresentações de dança gaúcha tradicional.







Doces de Pelotas - Parte 1 - A Cidade

     Esta é uma postagem especial, que precisa de espaço para contar brevemente minha experiência de visitar uma cidade e conhecer um evento sobre o qual escrevi a partir de pesquisa bibliográfica. Refiro-me à Feira Nacional do Doce - Fenadoce, que acaba de acontecer em sua vigésima edição.

     Estive em Pelotas com minha amiga Vera Especiani entre 29 de maio e 5 de junho. Foi maravilhoso e gratificante conhecer pessoalmente o Sr. Gunter Bering e sua esposa, Eloy, pessoas que me ajudaram a construir o Estudo de Caso 5 (páginas 51 a 53 de O Ponto do Doce) e que foram guias amorosos durante nossa permanência. Foi assim que conhecemos Samir Curi, Cláudio Pereira de Sá, Alcir Bach, Mário Osório Magalhães e Maria Helena Jeske.

Da esquerda para a direita: Dalva, Gunter, Eloy e Vera, na Churrascaria Lobão

     Pelotas (bolas, em espanhol) eram recipientes arredondados feitos de couro bovino amarrado em galhos e tiras para segurar, utilizados pelos índios para conter pertences durante travessia dos rios da região. Uma réplica foi exposta na 20ª Fenadoce.

     Nos seus 200 anos, os símbolos da aristocracia pelotense encontram-se gravados não apenas na arquitetura decorada do mercado municipal ou nas nereidas da fonte recém-restaurada, mas pela cidade toda, na educação e cordialidade dos seus habitantes.
                                          





Edifício do mercado municipal com obras de recuperação da fachada, com a torre do relógio ao fundo. Pretendiam tirar a torre por não seguir o mesmo estilo, mas a população exigiu sua permanência.







A Fonte das Nereidas, na Praça Coronel Pedro Osório    inteiramente revitalizada.









No centro da cidade, onde ficamos hospedadas, o comércio tem grande atividade, lojas com vitrinas lindas expõem roupas para o inverno rigoroso, porém de colorido brasileiro. As mulheres são altas, em geral magras e vestem casacos vermelhos ou amarelos-gema com total naturalidade. Lá se compra roupas de tamanhos grandes também em lojas populares (as mesmas de São Paulo), que atendem à estatura maior das pessoas.
As lojas de doces, que se denominam docerias ou doçarias, essas são maravilhosas e, além das vitrinas tentadoras, possuem espaços para sentar e comer. São bastante frequentadas pelos próprios pelotenses. Esse período era ainda propício para visitar as docerias, já que da programação da Fenadoce, na sua 20ª edição, constavam várias atividades na área central, distante da feira que se realiza no Centro de Eventos.

Atrás da formiga-símbolo da Fenadoce,
o relógio marca o tempo que faltava para os 200 Anos de Pelotas.




Doces tradicionais comercializados em feira
permanente da Cooperativa dos Doceiros,
no calçadão ao lado do mercado municipal que se encontra em final de reforma.























Na véspera da inauguração da Fenadoce, desfile no centro da cidade animado pelo Grupo Tholl.                                                        
 

Doces de Pelotas - Parte 3 - Degustação

Ufa! Cheguei na parte final das postagens para contar a vocês como foi trazer e colocar na mesa os doces de Pelotas. Com outras compras (um poncho de tear e uma pequena bolsa), minha mala que saira de São Paulo com 18 quilos, voltou com 23, sem contar o que veio na mão!
O encontro para degustação, marcado com bastante antecedência, foi no dia 10 de junho, para possibilitar que as estrelas fossem os doces de Pelotas.
Os de alta confeitaria, escolhidos entre 14 tipos: bem-casado, camafeu, olho de sogra, pastel de santa clara, fatia de braga, trouxas de amêndoas, broinha de coco e amanteigado. Infelizmente os pasteis de Santa Clara, de formato para mim inusitado, como um pequeno envelope de massa finíssima que chega a ser transparente, não resisitiram à viagem, chegaram com os cantos partidos. Mesmo assim, foram para a mesa. A escolha excluiu, não apenas por segurança mas também pela facilidade de tê-los em São Paulo, os doces feitos praticamente de ovos, como quindim, ninho, papo de anjo, beijinho de coco e panelinha de coco.
Os de frutas, também selecionados entre muitos: marmelada, figada, pessegada, passa de pêssego, figos e cascas de laranja critalizados.
Além desses, não resisti às rapadurinhas de amendoim vendidas em cada esquina. Comprei-as na feira permanente da Cooperativa dos Doceiros.


Na mesa variedade de doces, todos com teor de açúcar menor do que estamos acostumados.

Atenção para o selo de certificação dos doces

Figos cristalizados

Marmelada

Passa de pêssego

No sentido horário: figada, pessegada, casca de laranja cristalizada

Outra vista dos mesmos doces

Rapadurinhas de amendoim

Comentei acima que todos os doces têm teor de açúcar menor do que estamos acostumados. A tradição doceira de Pelotas é europeia. Dos portugueses açorianos vieram as receitas da confeitaria tradicional. De franceses, alemães e italianos, o conhecimento das frutas e sua conservação. Por muito tempo esses colonizadores não contaram com fartura de açúcar como em outras regiões do Brasil, pois cana de açúcar nunca fez parte da variada produção agrícola do sul do Brasil. Açúcar tornou-se mais viável com a formação das charqueadas, ciclo econônico iniciado na segunda metade do século 18. Pelotas produzia charque e despachava para o nordeste, por navio a partir do porto de Rio Grande. O mesmo navio embarcava açúcar no porto de Recife e o levava para Pelotas.

O fato é que até hoje o teor de açúcar é mais parecido com o da Europa do que com o Brasil de outras regiões. Na Fenadoce, fiz questão de comer o Pastel de Belém que Eloy me oferecia, junto com café expresso, da maneira como comi em Lisboa, em Café na Torre de Belém. E foi exatamente a mesma sensação!

Hoje toda essa tradição da confeitaria portuguesa encontra-se com a mais avançada tecnologia da informação. O selinho de certificação de cada doce contém um endereço eletrônico e um número. Juntando os dois, se obtém uma série de informações sobre a região de produção do doce, datas de produção e de validade, ingredientes, sua procedência e validade. Vale a pena experimentar: www.docesdepelotas.org.br e códigos BC000000125A, BC000000129A, CA000002199A, OS000003012.

Em minha opinião os doces de Pelotas representam seu patrimônio cultural identitário, já que promovem conhecimento e autoestima positiva na população, que se reinventa e insere novas receitas nesse verdadeiro tesouro.